Ode à acordar acompanhado

Mulheres são estranhas. Quando a gente gosta elas não gostam.

Sempre achei lindo mulher de moleton, camisetão, regata velha, essas coisas. A regata até que está na moda, calça de moleton é comum no estrangeiro, mas nem sempre foi assim. Ainda não é, são poucas as que tem coragem (?) de usar tão simples e sensuais vestimentas.

Sempre achei que dormir junto e acordar junto é fundamental, por vezes, melhor que o sexo em si. E não é aquela coisa de filme em que a mocinha dorme bonitinho no peito do mocinho, ou dormir de conchinha a noite toda. Não há circulação que aguente, meu braço sempre começa a formigar.

O bom mesmo é o ronco, hiperatividade na cama, chutar e/ou puxar cobertas, e por aí vai. Acordar no meio da noite porque seu par levantou pra ir ao banheiro, para beber água, porque é sonâmbulo, porque a casa está em chamas, e dar aquele beijinho remelento que você nem vai lembrar amanhã, já que nem acordou direito para tal atividade, isso sim é dormir junto. Dormir acompanhado é uma arte, não só uma necessidade.

E quando acaba o sono e você pode observar a outra metade do casal ali, nua? Ou melhor, de pijama: aqueles com bixinhos, florzinhas, docinhos, nada sexuais. Lingerie bege, camiseta emprestada (aquela que nem você usa, e não camisa social igual na novela), uma samba-canção minha.

Bem, eu obviamente estou prestes a dormir sozinho, de outro modo não estaria aqui escrevendo esse monte de babozeiras. Entrego-me então aos braços de Morfeu, e vos entrego às sábias palavras de Veríssimo.

Nádegas Redolentes

Ela era irresistível quando acordava. Tinha até um cheiro diferente, que desaparecia no resto do dia. Um cheiro morno. Cheiro de leite morno, era isso. Com um inexplicável toque de baunilha. Mas ela acordava de mau humor. Quente, cheirosa, apetitosa e emburrada. Nem deixava ele beijá-la na boca. “Eu ainda não escovei os dentes!” E se ele tentasse beijar o seu umbigo (noz moscada, possivelmente canela), ela enxotava-o.

Não eram só os cheiros. Ela acordava fisicamente diferente. A cara maravilhosamente inchada, a boca intumescida, como a de certas meninas do Renoir. No resto do dia ia alongando-se, modiglianizando-se, mas de manhã era uma camponesa compacta, com fantásticas olheiras roxas. Ele não sabia explicar. Ela era uma mulher delgada, de pernas compridas, mas de manhã tinha as pernas grossas. E ou ele muito se enganava ou até a bunda ela perdia, de dia. A bunda. As nádegas redolentes. “Mmmmm… Ervas aromáticas. Um quê de sândalo…”
— Pá-ra.
De noite, ela insistia e o emburrado era ele. Ela tomava banho, botava uma camisola transparente e deitava ao lado dele, toda certinha, penteado perfeito. Ele não podia dizer do que gostava mesmo era quando ela acordava com a camisola toda torta, com uma alça enroscada nas pernas, nas doces pernocas matinais. Ele ficava lendo, ela ficava esperando. Cheirando a sabonete e esperando. Tentava começar uma brincadeira, atiçando-o com o pé. Cantarolava no seu ouvido
– “Ele já não gosta mais de mim, que pena, que pee-na…”
Ele continuava lendo até que ela desistisse e dormisse. Ele não queria nada com aquela pessoa que virava as pestanas antes de ir para a cama. Queria era a camponesa da manha. Sonhava com a sua camponesa irritada.

A tese dela era que, antes de escovar os dentes e tomar café, uma pessoa não é uma pessoa, é uma coisa. Pode evoluir para uma pessoa se fizer um esforço, mas é um processo lento e difícil que requer concentração, e exclui qualquer forma de digressão, ainda mais sexual. Comparava o sono a um acidente ao qual a gente sobrevive, mas leva meio-dia para se recuperar. E o desejo dele de possuí-la antes de escovar os dentes a uma tara indefensável, quase a uma forma de necrofilia.

– “Sai, sai!”

E levantava-se, tentando encontrar as pontas da camisola, puxando uma alça do meio das pernas com fúria. Quando chegava à porta do banheiro, já era uma mulher comprida. E ele ficava cheirando o travesseiro ainda quente. Mmmm. Baunilha, decididamente baunilha. Uma noite, ela disse:
– Eu acho que você tem outra. Acho que você está pensando nela neste momento. Fingindo que lê e pensando nela. Diz que não!
Ele não disse que não. Estava pensando nela, de manhã. A sua outra, a sua inatingível outra, a das pernocas, a da baunilha. Mas ela não precisava se preocupar, pensou. Nunca seria enganada. A outra não queria nada com ele.
— Apaga a luz, apaga.
Ele suspirou, fechou o livro, apagou a luz. Enquanto faziam amor, ele tentava imaginar que ela era a outra. Mas o cheiro de sabonete atrapalhava.
Luís Fernando Veríssimo, in “Sexo na Cabeça”, 2002
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